Com fotos e vídeos falsos, esta é a eleição do vale-tudo no WhatsApp

04/10/2018

Dois dias depois de uma manifestação que reuniu centenas de mulheres pelo país contra sua campanha, no sábado, Jair Bolsonaro (PSL), subiu quatro pontos percentuais nas pesquisas de intenção de voto — ganhando terreno inclusive entre as mulheres. Como isso é possível? Uma das explicações vem dos grupos de WhatsApp, onde imagens montadas mostraram fraco apoio à manifestação e até mulheres de seios de fora como se fossem de fotos tiradas no dia do protesto. Tudo falso, e tudo circulando livremente pelas rede social que terá um peso decisivo nesta corrida eleitoral — e não só para o capitão reformado que lidera a pesquisa eleitoral.

Fechada e criptografada, a rede social tornou-se o meio mais rápido, barato e fácil de disseminar conteúdos –sejam eles verdadeiros ou falsos– sobre os candidatos e de fazer campanha nesta eleição.

“O WhatsApp é gratuito e qualquer pessoa que o utiliza participa de, pelo menos, um grupo (da família, do trabalho dos amigos). A capacidade de propagação de um conteúdo sem algoritmo e sem dinheiro é muito mais alta no WhatsApp do que nas outras redes”, afirma Maurício Moura, presidente do instituto de pesquisa Ideia Big Data.

Enquanto na última eleição, em 2014, apenas 24% dos adultos brasileiros possuíam um smartphone, em 2017 este percentual mais que dobrou, para 54%, de acordo com um levantamento do Pew Research Center. Dados de uma pesquisa anual do Centro de Tecnologia de Informação Aplicada, da FGV, mostram que, em maio deste ano, eram 220 milhões de smartphones em uso no Brasil –mais de um celular inteligente por habitante.

Útil para a comunicação, instantânea, e ainda gratuito, o WhatsApp se popularizou rapidamente por aqui. O Facebook, empresa dona do aplicativo, não divulga números por país, mas Moura calcula que sejam pelo menos 90 milhões de usuários –o que equivaleria a 61% do eleitorado.

Nesta eleição, a rede social ganhou outros novos contornos e se tornou um pólo de discussão política e de divulgação de conteúdos contra e a favor dos presidenciáveis. Quem é que nunca recebeu um vídeo ou foto relacionada ao pleito em um grupo do WhatsApp? Em abril, quando ainda estávamos em pré-campanha, 75% da população dizia já ter recebido um conteúdo de política no aplicativo, aponta uma pesquisa do Ideia Big Data. Imagine agora, a três dias do primeiro turno de uma das eleições mais acirradas do país.

No Facebook ou no Instagram, para que uma postagem chegue a um público maior, é necessário investir dinheiro para “impulsionar” o conteúdo, no jargão das redes. No Twitter, a disseminação é mais controlada pelo algoritmo da rede social. Já no WhatsApp, o conteúdo é espalhado livremente.

A rede social é responsável também por espalhar, pessoa a pessoa, postagens publicadas em outras redes sociais, como o Facebook. Segundo levantamento divulgado nesta quinta-feira pelo jornal O Globo, 35 postagens no Facebook tiveram 400.000 compartilhamentos; no Instagram, apenas quatro vídeos tiveram 2,7 milhões de visualizações. Na última semana das eleições, as publicações publicadas em 18 páginas de viés político do Facebook tiveram nove vezes mais interações que no início de setembro.

Entre os conteúdos que circularam pelos grupos durante a campanha estão Marina Silva invadindo uma fazenda no Acre, Ciro Gomes agredindo a atriz Patrícia Pillar, o Padre Marcelo Rossi declarando seu voto, uma ligação entre Manuela D’Ávila (vice de Fernando Haddad) com o agressor de Bolsonaro e até Paulo Guedes em evento com Hugo Chávez. Tudo falso. Mas nem só de fake news vivem as publicações nas redes sociais. Elas incluem uma enxurrada de notícias aumentadas, distorcidas e fora de contexto. E, no conjunto, serão decisivas nestas eleições.

Nesta quarta-feira o petista Fernando Haddad afirmou que notícias falsas contra ele, espalhadas sobretudo por apoiadores de Bolsonaro, são responsáveis pelo seu mau resultado nas pesquisas recentes. Claro que os fatores que explicam a liderança do capitão do exército são mais complexos do que isso.

Mas de fato a campanha que mais soube aproveitar o potencial do Facebook, e sobretudo do WhatsApp, como veículos de propagação de conteúdo foi a de Jair Bolsonaro (PSL). Uma reportagem do final de julho da revista piauí mostrou que Major Olímpio, candidato ao Senado pelo PSL e um dos principais aliados de Bolsonaro, contava com 897 grupos no WhatsApp para driblar os nove segundos de propaganda eleitoral na televisão que o presidenciável tem direito.

Mas, mais do que vinda de nomes do PSL, a campanha a favor de Bolsonaro nos grupos do aplicativo é espontânea -e, justamente por isso, altamente eficaz. Ela também não nasceu ontem. Há pelo menos dois anos grupos já fazem campanha na rede em prol do capitão reformado. A campanha de Fernando Haddad (PT) também é bem organizada em unificar todas as plataformas (rádio, televisão e redes), mas é mais centralizadora e menos espontânea que a de Bolsonaro nas redes sociais, principalmente no WhatsApp.

O que circula

EXAME teve acesso a todo o conteúdo compartilhado em apenas um grupo a favor do candidato durante o último final de semana. Foram mais de 90 vídeos de conteúdos variados: entrevistas com Bolsonaro, registros das manifestações a favor do candidato, pegadinhas nos atos contra ele, críticas contra o PT, conteúdos levantando suspeitas sobre pesquisas eleitorais, orações, montagens, sátiras de filmes, declarações de apoiadores, entre outros.

Há de tudo: conteúdos verdadeiros, mentirosos, respeitosos e ofensivos. Um dos vídeos é uma montagem de várias atrizes da Globo e cantoras que declaram apoio à hashtag #EleNão. No final, aparece um menino, ainda criança, dizendo: “tudo puta”. Outro, apenas exalta a figura de Bolsonaro, intercalando frases como “imagine um homem, apenas um homem”, “um homem contra um sistema poderoso”, “rugiu como um leão”, com imagens do candidato e de cenas bíblicas.

Inicialmente enviados em grupos criados especificamente para fazer campanha para Bolsonaro, conteúdos do tipo chegam rapidamente a outros grupos. EXAME conversou com uma fonte que estava em três grupos voltados para simpatizantes religiosos (não especificou qual religião) do candidato do PSL. Neles, a fonte relatou o compartilhamento exaustivo de imagens e vídeos falsos sobre as manifestações da campanha #EleNão, realizadas em mais de 30 cidades do Brasil no último sábado (a identidade da fonte foi preservada por motivos de segurança).

Segundo a fonte, um dos vídeos misturava imagens reais dos atos de sábado com imagens, também reais, mas tiradas de contexto de manifestantes quebrando imagens sacras –o que realmente aconteceu, só que em julho de 2013, durante uma visita do Papa Francisco ao Brasil. Outro vídeo também colocava no meio de cenas reais dos protestos contra Bolsonaro imagens de mulheres nuas, ativistas do grupo feminista radical Femen, criado na Ucrânia. Na sequência, um dos administradores pediu, segundo a fonte, para repassar os conteúdos e mostrar o que a “turma do PT e Ciro” querem para o país.

Notícias falsas

No WhatsApp, as mensagens são criptografadas, o que significa que nem a própria empresa consegue ler o que os usuários mandam uns para os outros. A criptografia foi implementada pela companhia como medida de segurança, para impedir o roubo de dados pessoais.

No entanto, o que era para ser algo em prol da segurança e privacidade dos usuários tem se mostrado um entrave para investigações da Polícia Federal ou para que possam ser identificadas as origens e os propagadores de notícias falsas. “A criptografia de ponta-a-ponta está sempre ativada. Não há nenhuma maneira de desativar a criptografia de ponta-a-ponta”, afirma a própria empresa em seu site sobre a tecnologia.

Isso faz com que a rede seja a mais propícia para espalhar conteúdos enganosos, distorcidos ou simplesmente totalmente falsos e que atingem todos os lados da disputa eleitoral. Um exemplo são dois áudios recentes, ambos totalmente falsos. Um deles, compartilhado em grupos bolsonaristas, seria de uma suposta liderança petista elogiando um ato pró-Bolsonaro, em Alagoas. O outro, também falso, trazia Bolsonaro xingando uma enfermeira quando estava internado no hospital Albert Einstein.

Antes de a campanha eleitoral começar, o Tribunal Superior Eleitoral anunciou uma série de parcerias com empresas de mídia e de tecnologia para conter a disseminação de notícias falsas que pudessem prejudicar o pleito. No entanto, o que mostram os trabalhos diários das agências de checagens é que conter a propagação das notícias falsas é quase impossível. O que se pode fazer é desmenti-las.

“Rastrear conteúdos falsos no WhatsApp é bem complicado, demandaria muito tempo e não surtiria efeito nenhum nesse período curtíssimo de campanha, porque tudo precisaria de autorização do Judiciário, que não acompanha essa velocidade”, afirma a advogada especializada em mídia e internet Taís Gasparian.

Para ela, muito mais eficaz que uma legislação específica contra notícias falsas, que poderia beirar a censura, são as agências de checagem, que averiguam as informações quase em tempo real. É o caso da Agência Lupa, Aos Fatos e o projeto Comprova, este último uma parceria de vários veículos de mídia. No comprova, cada notícia falsa é checada por, pelo menos, três veículos diferentes.

“O que mais se pode fazer é ter fontes que desmentem”, diz Gasparian. Na opinião da advogada, as eleições não foram corrompidas pelas notícias falsas e nenhum candidato foi mais prejudicado que outro pela disseminação de conteúdos mentirosos. “Ainda mais nesses grupos fechados, nos quais as pessoas normalmente estão porque já simpatizam com um ou outro candidato. Não é um ou dez vídeos que fazem diferença”, afirma.

A fonte que participava de três grupos no WhatsApp discorda. “O que é mais importante? A televisão ou receber vídeo de um amigo? O que está tendo influência é esse trabalho”.

Exame

 




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