Entre analistas políticos é consenso que as eleições gerais de 2026 serão decisivas
para apontar o rumo futuro do Partido dos Trabalhadores na conjuntura nacional,
espécie de divisor de águas sobre seu tamanho e sua capacidade de influência junto a
amplas parcelas do eleitorado brasileiro. Essa radiografia começa a partir da reeleição
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputará o seu quarto mandato em
período alternado e que tem sido o principal farol da legenda, uma figura mítica,
lendária e, para muitos petistas, insubstituível. Aliás, o dilema do PT quanto à sua
sobrevivência é exatamente este: que destino terá a agremiação quando Lula passar
em definitivo o bastão e pendurar as chuteiras? O atual presidente nacional Edinho
Silva tem sob seus ombros a responsabilidade de engendrar as melhores alianças para
o PT no pleito à vista.
Não se culpe o PT por omissão quanto à estratégia para forjar quadros com
potencial de liderança para ocupar os espaços que Lula deixará, ainda que sem o
carisma e níveis inéditos de popularidade que ele tem persistido em alcançar,
driblando as oscilações de tendência do eleitor fidelizado, que por vezes dá sinais de
exaustão com o poder de fala de um homem só, e da própria militância engajada que
aspira, naturalmente, à renovação de quadros, à experimentação de novos líderes, ao
teste de líderes emergentes que eventualmente repontem nos diferentes Estados do
país. Lula arriscou demais o seu poder de transferência de votos quando praticamente
“inventou” a figura da “Mãe do PAC”, a ex-presidente Dilma Rousseff, cuja eleição e
reeleição constituíram marcos históricos, infelizmente desgastados pelo
“impeachment” que ela sofreu, a pretexto de pedaladas fiscais à frente do Executivo.
Dilma valeu pelo simbolismo que sua ascensão representou – empoderando as
mulheres pela primeira vez na Presidência da República, mas teve uma duvidosa e,
dizem, desastrosa competência para a arte de administrar quando foi posta diante do
supremo desafio.
O lançamento de Dilma significou corte epistemológico radical na trajetória do
Partido dos Trabalhadores, fundado debaixo do estigma de “gueto” sectário, cujo
estatuto foi acionado como “interdito proibitório” ao acesso às suas fileiras ou filiação
de figuras de centro-esquerda que poderiam ter facilitado a trajetória do PT rumo ao
poder nas diversas esferas, pela liderança pessoal construída nos Estados onde atuam.
Aqui na Paraíba, o PT vetou tanto Antônio Mariz, que se fez dissidente ainda na Arena,
partido de sustentação do regime militar, quanto Marcondes Gadelha, um dos grandes
expoentes do “grupo autêntico” do MDB que desafiou ostensivamente a ditadura.
Houve restrições, também, a uma filiação da deputada Lúcia Braga, que embora no
PDS, alinhava-se com a esquerda na Assembleia Nacional Constituinte, tomando
posições nitidamente progressistas. Sobre Marcondes Gadelha, um dos luminares da
política paraibana, um obscuro militante do PT ‘vetou’ o seu ingresso no partido
alegando que ele nunca vestira o macacão de operário, ignorando que Lula, no
protocolo da diplomacia, converteu-se ao paletó e à gravata.
Outro quadro valoroso que passou pelo crivo do laboratório do Partido dos
Trabalhadores para a própria Presidência da República foi, sem dúvida, o ex-ministro
da Educação e da Fazenda, Fernando Haddad, que também foi prefeito de São Paulo.
Ele assumiu o lugar cativo de Luiz Inácio Lula da Silva em momento crucial vivido por
este, então recolhido a uma sala da Polícia Federal em Curitiba, cumprindo pena de
prisão decretada no bojo da Operação Lava-Jato, dali saindo em clima de apoteose, na
direção do Palácio do Planalto, derrotando Jair Bolsonaro, o falso “mito”, único
presidente da história institucional brasileira recente a não se reeleger. Líderes da
velha guarda petista que foram fiéis, sobretudo, a Lula, dele tentam se aproximar
nestas eleições, buscando credenciar-se para o futuro, mas o cenário pede renovação,
pede sangue novo. Somente Lula tem imunidade absoluta nas hostes do PT, a dados
de hoje.
As eleições de 2026, embora focadas prioritariamente na recondução do
presidente Lula, terão que contemplar, na estratégia do PT, vitórias a governos
estaduais e, sobretudo, a eleição de um grande número de parlamentares filiados ou
identificados com a legenda e com o lulismo. Não por acaso há um esforço para eleger,
inclusive, senadores, titulares de uma Casa que é palco de votações polêmicas e de
cenário vulnerável para a governabilidade de Lula, além, é claro, da Câmara dos
Deputados, onde tornou-se avassaladora a influência do chamado Centrão,
agrupamento fisiológico que controla a pauta e a maioria das decisões do Poder. Há
uma pergunta latente que, infelizmente, depende de bola de cristal para ser
respondida: a eleição para a Presidência este ano será a última da polarização entre
bolsonaristas e lulistas, ou essa disputa que tantos criticam ainda vai se estender? Seja
como for, para o PT é a grande cartada, capaz de lhe dar fôlego para tentar sobreviver,
pelo menos, como partido médio, honrando as tradições da célebre assembleia no
Colégio Sion, em São Paulo, na década de 80, quando raiou uma novidade na política
brasileira em plenos estertores da longa noite das trevas, a ditadura civil-militar
instaurada em 1964.
Por Nonato Guedes