Rubens Nóbrega lamenta o fechamento do Jornal Correio da Paraíba: “me doeu feito falecimento de pessoa querida”

05/04/2020
Rubens Nóbrega foi o editor-geral responsável por tornar o jornal líder de vendas no Estado (Arquivo)
Rubens Nóbrega foi o editor-geral responsável por tornar o jornal líder de vendas no Estado (Arquivo)

 O encerramento da circulação da versão impressa do Jornal Correio da Paraíba, neste sábado (4), continua repercutindo junto ao meios jornalístico, intelectual e cultural do Estado. Em depoimento emocionado, e exclusivo, concedido ao Portal, o jornalista Rubens Nóbrega relembra as idas e vindas pela empresa e períodos de ouro, inclusive, quando chegou a ocupar a editoria-geral do veículo, entre os anos de 1982 e 1988 e de 1990 a 1992.

“A notícia me doeu feito nota de falecimento de pessoa querida, muito próxima, apesar das especulações que há muito davam como certa a demolição imaterial, formal, da casa que me acolheu por quase vinte anos”, relata Rubens, que também trabalhou no Jornal Correio da Paraíba como editor especial (fechador de primeira página), de 1979 a 1981; ombudsman, em 1995; e colunista nos anos 2000.

O jornalista também relembra a guinada editorial do periódico, que sob o seu comando passou a ser o mais vendido da Paraíba. “A virada, histórica, significou derrubar de um trono de meio século o então todo-poderoso O Norte, carro-chefe dos Associados na Paraíba. Feito que deve ser creditado ao empenho e competência profissional de quem estava acima e ao meu lado no desafio”, pontua.

Por fim, Rubens Nóbrega comenta sobre a dor que sente ao ver colegas jornalistas demitidos com o fim da circulação do veículo impresso. “Inimaginável o tamanho da angústia e da incerteza desses trabalhadores agora desempregados. Demitidos exatamente quando o Brasil é atacado de forma avassaladora e simultânea por duas pragas de altíssima letalidade, o coronavírus e os governantes que temos”, escreve.

Confira o relato de Rubens Nóbrega, na íntegra:

Caríssimo Walter,

O Correio da Paraíba fechou.

A notícia me doeu feito nota de falecimento de pessoa querida, muito próxima, apesar das especulações que há muito davam como certa a demolição imaterial, formal, da casa que me acolheu por quase vinte anos.

Já me sentia instalado feito posseiro, como escreveu o poeta, quando resolvi sair pela última vez, em 2010. Nessa última passagem, por sete anos fui colunista. Antes, de 1979 a 81, editor especial (fechador de primeira página), editor-geral (1982-88 e 1990-92) e ombudsman (1995).

Nesse vai-e-vem, tanto pedi pra sair como me mandaram embora ou me pediram pra voltar. Significa que este semovente um tanto quanto indomesticado tinha alguma utilidade. Não morei de favor.

Preciso reconhecer, contudo e sempre, que não passaria sequer pela calçada não fosse o cabimento que me deram, sucessivamente, Adalberto Barreto, José Fernandes Neto, Paulo Brandão, Roberto Cavalcanti, Alexandre Jubert e Bia Ribeiro.

Mercê da confiança de donos ou dirigentes da empresa, projetei-me como jornalista. Retribui, de algum modo. Graças ao apoio dado a projetos como aquele que conquistou em 1992 a liderança de credibilidade e circulação no Estado.

A virada, histórica, significou derrubar de um trono de meio século o então todo-poderoso O Norte, carro-chefe dos Associados na Paraíba. Feito que deve ser creditado ao empenho e competência profissional de quem estava acima e ao meu lado no desafio.

Não vou mencionar todos para não cometer injustiça por esquecimento. Permita-me nominar apenas três, fundamentais – e representativos das categorias a que pertencem – para o sucesso do maravilhoso biênio (91-92) que construímos juntos no Correio, executando aquilo que batizei de Projeto Líder. Ei-los.

Bené Alves, chefe das oficinas, como representativo dos gráficos, além de estrategista da distribuição e vendas de jornais; Carlos Cézar Muniz e Fernando Moura, chefe de Reportagem e secretário de Redação. Com eles compartilhei ideais e ideias, rumos e responsabilidades.

Tudo sob a retaguarda de Jubert, Roberto e Zé Fernandes. A eles e a todos do batente de rua e redação agradeço por aquilo que fui e fiz de bom no Correio. O ruim deixo pra contar noutro tempo e oportunidade. Em livro, talvez.

Neste momento, importa e dói muito mais dizer e sentir que a partir de hoje teremos mais algumas dezenas de sem-teto no olho da rua da amargura. Tal e qual o ato de despejo que precede a demolição.

Digo assim para lamentar profundamente a inapelável dispensa coletiva de todos os amigos e colegas, novos e antigos, que tomaram conta da casa até este sábado, 4 de abril do ano da desgraça de 2020.

Inimaginável o tamanho da angústia e da incerteza desses trabalhadores agora desempregados. Demitidos exatamente quando o Brasil é atacado de forma avassaladora e simultânea por duas pragas de altíssima letalidade, o coronavírus e os governantes que temos.

Ainda tenho pra contar muitas histórias da minha história no Correio. Histórias de alegria, como essa que acabei há pouco, que conto por ter sido referida por você em nosso contato de ontem.

Devo contar também em escrito mais alentado, como disse, momentos de tensão e horror extremados, como o foi o assassinato de Paulo Brandão, em dezembro de 84.

Por enquanto, falei pra você, estou tão amargurado e travado que não consigo ir além do meramente descritivo, narrativo. Ao mesmo tempo, procuro em vão um fecho razoável para não encompridar esta carta e aborrecer seus leitores.

A única coisa que vem à cabeça, amigo e companheiro de tantas, são os versos tristemente lindos que Chico Buarque acomodou em melodia de Garoto.

E eu, que não creio,

peço a Deus por minha gente.

É gente humilde,

que vontade de chorar…

Rubens.

Em João Pessoa, Paraíba, abril de 2020.

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Roberto Noticia  -  Jornalista -  DRT 4511/88



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