Colunista Nonato Guedes

  • Eleições de 2026 serão decisivas para balizar rumo futuro do PT

    30/06/2026

     Entre analistas políticos é consenso que as eleições gerais de 2026 serão decisivas

    para apontar o rumo futuro do Partido dos Trabalhadores na conjuntura nacional,
    espécie de divisor de águas sobre seu tamanho e sua capacidade de influência junto a
    amplas parcelas do eleitorado brasileiro. Essa radiografia começa a partir da reeleição
    do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disputará o seu quarto mandato em
    período alternado e que tem sido o principal farol da legenda, uma figura mítica,
    lendária e, para muitos petistas, insubstituível. Aliás, o dilema do PT quanto à sua
    sobrevivência é exatamente este: que destino terá a agremiação quando Lula passar
    em definitivo o bastão e pendurar as chuteiras? O atual presidente nacional Edinho
    Silva tem sob seus ombros a responsabilidade de engendrar as melhores alianças para
    o PT no pleito à vista.


    Não se culpe o PT por omissão quanto à estratégia para forjar quadros com
    potencial de liderança para ocupar os espaços que Lula deixará, ainda que sem o
    carisma e níveis inéditos de popularidade que ele tem persistido em alcançar,
    driblando as oscilações de tendência do eleitor fidelizado, que por vezes dá sinais de
    exaustão com o poder de fala de um homem só, e da própria militância engajada que
    aspira, naturalmente, à renovação de quadros, à experimentação de novos líderes, ao
    teste de líderes emergentes que eventualmente repontem nos diferentes Estados do
    país. Lula arriscou demais o seu poder de transferência de votos quando praticamente
    “inventou” a figura da “Mãe do PAC”, a ex-presidente Dilma Rousseff, cuja eleição e
    reeleição constituíram marcos históricos, infelizmente desgastados pelo
    “impeachment” que ela sofreu, a pretexto de pedaladas fiscais à frente do Executivo.
    Dilma valeu pelo simbolismo que sua ascensão representou – empoderando as
    mulheres pela primeira vez na Presidência da República, mas teve uma duvidosa e,
    dizem, desastrosa competência para a arte de administrar quando foi posta diante do
    supremo desafio.

    O lançamento de Dilma significou corte epistemológico radical na trajetória do
    Partido dos Trabalhadores, fundado debaixo do estigma de “gueto” sectário, cujo
    estatuto foi acionado como “interdito proibitório” ao acesso às suas fileiras ou filiação
    de figuras de centro-esquerda que poderiam ter facilitado a trajetória do PT rumo ao
    poder nas diversas esferas, pela liderança pessoal construída nos Estados onde atuam.
    Aqui na Paraíba, o PT vetou tanto Antônio Mariz, que se fez dissidente ainda na Arena,
    partido de sustentação do regime militar, quanto Marcondes Gadelha, um dos grandes
    expoentes do “grupo autêntico” do MDB que desafiou ostensivamente a ditadura.
    Houve restrições, também, a uma filiação da deputada Lúcia Braga, que embora no
    PDS, alinhava-se com a esquerda na Assembleia Nacional Constituinte, tomando
    posições nitidamente progressistas. Sobre Marcondes Gadelha, um dos luminares da
    política paraibana, um obscuro militante do PT ‘vetou’ o seu ingresso no partido
    alegando que ele nunca vestira o macacão de operário, ignorando que Lula, no
    protocolo da diplomacia, converteu-se ao paletó e à gravata.

    Outro quadro valoroso que passou pelo crivo do laboratório do Partido dos
    Trabalhadores para a própria Presidência da República foi, sem dúvida, o ex-ministro
    da Educação e da Fazenda, Fernando Haddad, que também foi prefeito de São Paulo.
    Ele assumiu o lugar cativo de Luiz Inácio Lula da Silva em momento crucial vivido por
    este, então recolhido a uma sala da Polícia Federal em Curitiba, cumprindo pena de
    prisão decretada no bojo da Operação Lava-Jato, dali saindo em clima de apoteose, na
    direção do Palácio do Planalto, derrotando Jair Bolsonaro, o falso “mito”, único
    presidente da história institucional brasileira recente a não se reeleger. Líderes da
    velha guarda petista que foram fiéis, sobretudo, a Lula, dele tentam se aproximar
    nestas eleições, buscando credenciar-se para o futuro, mas o cenário pede renovação,
    pede sangue novo. Somente Lula tem imunidade absoluta nas hostes do PT, a dados
    de hoje.
    As eleições de 2026, embora focadas prioritariamente na recondução do
    presidente Lula, terão que contemplar, na estratégia do PT, vitórias a governos
    estaduais e, sobretudo, a eleição de um grande número de parlamentares filiados ou
    identificados com a legenda e com o lulismo. Não por acaso há um esforço para eleger,
    inclusive, senadores, titulares de uma Casa que é palco de votações polêmicas e de
    cenário vulnerável para a governabilidade de Lula, além, é claro, da Câmara dos
    Deputados, onde tornou-se avassaladora a influência do chamado Centrão,
    agrupamento fisiológico que controla a pauta e a maioria das decisões do Poder. Há
    uma pergunta latente que, infelizmente, depende de bola de cristal para ser
    respondida: a eleição para a Presidência este ano será a última da polarização entre
    bolsonaristas e lulistas, ou essa disputa que tantos criticam ainda vai se estender? Seja
    como for, para o PT é a grande cartada, capaz de lhe dar fôlego para tentar sobreviver,
    pelo menos, como partido médio, honrando as tradições da célebre assembleia no
    Colégio Sion, em São Paulo, na década de 80, quando raiou uma novidade na política
    brasileira em plenos estertores da longa noite das trevas, a ditadura civil-militar
    instaurada em 1964.

    Por Nonato Guedes

  • Lucas examina opções para compor a chapa na vice-governança

    16/05/2026

     Apesar da pressão subliminar de aliados políticos para antecipar o nome do candidato ou da candidata à vice-governança, que irá compor sua chapa nas eleições de outubro, o governador Lucas Ribeiro (Progressistas) avalia o cenário sem pressa, atento aos movimentos dos adversários políticos e os interesses estratégicos do seu esquema para se fortalecer na disputa majoritária. Ontem, o deputado estadual Adriano Galdino (Republicanos), presidente da Assembleia Legislativa e um dos cotados para a vaga, decidiu não manifestar opinião a respeito alegando que o debate interno sobre o assunto ainda não foi deflagrado no bloco oficial. Seu irmão, o deputado federal Murilo Galdino, porém, voltou a defender o nome de Adriano como importante para consolidar a chapa e sugeriu que o anúncio seja feito até os festejos juninos, no próximo mês.

    Adriano e Lucas vão cumprir agenda institucional em Brasília esta semana, com audiências junto a ministros do Supremo Tribunal Federal para dirimir o impasse entre o Executivo e o Legislativo sobre o valor das emendas impositivas de autoria dos parlamentares. O impasse é pontual e não prejudica o clima de bom entendimento entre o dirigente da Casa de Epitácio Pessoa e o chefe do Executivo, que concordaram em judicializar a questão, envolvendo interpretações sobre a Lei de Diretrizes Orçamentárias, justamente para alcançarem uma prova dos noves sobre quem está com o “bom Direito”. As decisões de Lucas no campo eleitoral têm sofrido a concorrência de pautas administrativas exitosas para o Estado. Ontem, por exemplo, ele esteve em São Paulo para celebrar a consolidação da parceria pública-privada com a empresa espanhola Acciona, que atua no setor de saneamento e infraestrutura, para ampliar e modernizar os serviços de esgotamento sanitário em 85 municípios paraibanos. O projeto tem chancela do BNDEs e remonta ao segundo governo de João Azevêdo (PSB), a quem Lucas substituiu a partir de abril.

    Na segunda-feira, em Brasília, Lucas e mais quatro governadores serão homenageados no Senado Federal com uma comenda em reconhecimento ao destaque dos Estados na alfabetização infantil e na redução das diferenças de aprendizagem entre alunos de diferentes contextos sociais. Entre os gestores que apresentaram avanços na alfabetização de adultos figuram, ainda, Elmano de Freitas, do Ceará, Otaviano Pivetta, do Mato Grosso, Rafael Fonteles, do Piauí, e Ricardo Ferraço, do Espírito Santo. Ceará e Mato Grosso recebem a comenda pela segunda vez e a iniciativa busca reforçar o compromisso do Legislativo com o Plano Nacional de Educação e com o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. A seleção foi feita por um comitê técnico composto por representantes do Ministério da Educação, do Senado, do Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira e das Fundações Lemann e Roberto Marinho.

    No capítulo político-eleitoral, da formação da chapa majoritária ao pleito de outubro, pelo menos duas mulheres se colocam como alternativas para a vice de Lucas Ribeiro: Rafaela Camaraense, ex-secretária do Meio Ambiente, respaldada pela direção nacional do PDT, ao qual se filiou, e Lígia Feliciano, ex-vice-governadora, que foi sugerida, ontem, em entrevista, pelo seu marido, o deputado federal Damião Feliciano, do União Brasil, pai do ministro do Turismo, Gustavo Feliciano. Rafaela representa a região do curimataú e, segundo versões, teria a preferência do atual governador, pelas suas qualificações técnicas e políticas e por ser de uma área estratégica na definição de resultados de eleições, além de ser integrante de uma família com tradição e liderança política. Mas Lucas examina outros nomes que vazam, como sugestão, do seu círculo íntimo, e da parte de líderes dos partidos da base. Quanto a Adriano, tem potencial inegável, tanto na articulação política como em agregar valores e apoios que podem fazer a diferença para Lucas no confronto com dois adversários – o ex-prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB) e o senador Efraim Filho, do PL, pré-candidato do bolsonarismo. O PT paraibano, que manifestou apoio à pré-candidatura de Lucas, também reivindica a vice-governança, sendo citado com frequência o nome do vereador por João Pessoa Marcos Henriques, conhecido pela sua combatividade na Câmara local.

    Das tratativas para a definição do(a) vice de Lucas Ribeiro participam, ativamente, o seu tio, deputado federal Aguinaldo Ribeiro, comandante da União Progressista, o ex-governador João Azevêdo, pré-candidato ao Senado, o deputado federal Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados e o seu pai, Nabor Wanderley, ex-prefeito de Patos, presidente estadual do Republicanos e pré-candidato ao Senado em dobradinha com Azevêdo. Todo o empenho dessas lideranças é direcionado no sentido de promover o consenso na condução das negociações de bastidores, evitando pretexto para divergências que acabem levando água para o moinho da oposição. A demora do governador Lucas Ribeiro em bater o martelo é atribuída no seu círculo à preocupação dele em mostrar habilidade no desideratum de composição da chapa majoritária, acomodando os diferentes interesses e ambições e fortalecendo o projeto político na perspectiva de um embate que tanto governo como oposição acreditam que será acirrado, talvez um dos mais acirrados da história recente do Estado.

    Por Nonato Guedes

  • Lua de mel entre Hugo Motta e governo Lula era de aparências

    28/06/2025

     Com a eclosão do impasse provocado pela derrubada na Câmara do decreto do governo Lula elevando o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) analistas políticos da grande imprensa avaliam que a lua de mel entre o presidente da Casa Baixa, Hugo Motta (Republicanos-PB), juntamente com Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, e o Planalto, era apenas de aparências. “Nos primeiros meses, viagens para o Oriente, Europa, Rússia, mas, como tudo que é feito com muita pompa, dura pouco”, comentou a apresentadora Amanda Klein, do Canal UOL, prevendo uma guerra imprevisível diante da pressão de aliados do presidente Lula para recorrer ao Supremo Tribunal Federal a fim de tentar retomar o aumento do IOF. Essa atitude poderia azedar ainda mais a relação.

    O deputado paraibano Hugo Motta tem sido convicto nas suas declarações em torno da queda de braço entre poderes, no sentido de advertir que cada Poder tem os seus limites e não pode excedê-los, sob pena de um desgastante enfrentamento institucional. Aliados do presidente da Câmara têm dito que o acionamento do STF gera mal-estar e seria como tentar colocar um cabresto sobre o Congresso Nacional. Hugo Motta elegeu-se para o comando da Casa na sucessão de Arthur Lira (PP-AL) dizendo-se cioso da necessidade de independência dos Poderes e, ao mesmo tempo, revelando-se inteiramente comprometido com os interesses corporativistas de seus colegas. A interferência do Supremo Tribunal Federal no caso da liberação de recursos de emendas parlamentares desatou hostilidades tanto de Hugo como de Alcolumbre, que resolveram não comparecer, ontem, à audiência convocada pelo ministro Flávio Dino para debater exatamente a transparência nas emendas.

     

    Um outro parlamentar influente sugeriu, em contato com o UOL, que seria melhor o governo reconhecer sua inoperância e começar as correções do que se empenhar em causas perdidas, tendo indicado alguns caminhos para corrigir a rota, como: relacionamento e respeito, cumprimento de acordos e esforço para desatar os nós criados pelo Judiciário, culminando com a execução dos orçamentos. O Congresso deixou claro que não aceita mais aumento de imposto enquanto no contraponto o Executivo assinala que não vai mexer nas desvinculações do Orçamento, o que seria uma reforma estrutural urgente e necessária. Os especialistas em economia raciocinam que a perdurar esse cabo de guerra não vai ter jeito e, sendo assim, a crise fiscal cairá com tudo no colo do próximo governo. Também há interesses ligados às eleições presidenciais de 2026, o que atrapalha mais ainda a conjuntura.

    Do modo como o cenário se apresenta, não é difícil constatar que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está encurralado, já que não conseguiu avançar nas suas próprias iniciativas para equilibrar as contas e, ainda por cima, é acusado de não liderar uma articulação política exitosa. Isto fez com que Hugo Motta ignorasse ligações da ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, antes da votação decisiva que aplicou a derrota acachapante ao Executivo em plenário. A esta altura, Motta estava articulado com representantes do setor produtivo e, politicamente, com expoentes do “Centrão”, que já estão conspirando abertamente contra a candidatura do presidente Lula a um novo mandato. As informações vindas de Brasília projetam que qualquer ação, seja sobre emendas, ou via Supremo Tribunal Federal, será inapelavelmente hostilizada no âmbito do Parlamento. Parlamentares rebelados da base governista têm advertido nos bastidores que “começa uma nova fase” e lamentam que o governo ainda não tenha percebido o desenho da realidade que se configura e que soa desfavorável para o poder de plantão.

    Se o governo cortar emendas, dentro da tese de contingenciamento de recursos que ganha força em Brasília para fazer frente às perdas de recursos estimadas em R$ 12 bilhões, pode ensejar um novo movimento de insurreição da base e ampliar a série de derrotas no Congresso Nacional. Fala-se que a derrota na questão do IOF foi uma espécie de “Dia D” para a autonomia do Legislativo e que o presidente Hugo Motta esteve afinadíssimo na reação com o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Uma das questões levantadas para votação da proposta foi a aproximação do ano eleitoral, onde os deputados preparam o terreno para tentar se reeleger ou disputar outros cargos eletivos. Isso aconteceu, conforme o “Metrópoles”, porque parte da cúpula da Câmara dos Deputados vê o governo Lula desgastado diante das últimas pesquisas eleitorais, e tenta ampliar o desgaste do petista para cacifar um nome mais ligado ao centro ou à direita. Isto foi o que deu gás ao estratagema ainda em curso em Brasília.

    Por Nonato Guedes

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